terça-feira, 22 de janeiro de 2013


TEXTO DE TEREZA COLLOR 


Publicado por Mendonça Neto, Jornal Extra - Rio de Janeiro . 


Carta aberta ao Senador Renan Calheiros 

"Vida de gado. Povo marcado. Povo feliz". As vacas de Renan dão cria 24 h 
por dia. Haja capim e gente besta em Murici e em Alagoas! 
Uma qualidade eu admiro em você: o conhecimento da alma humana. Você sabe 
manipular as pessoas, as ambições, os pecados e as fraquezas. 

Do menino ingênuo que eu fui buscar em Murici para ser deputado estadual em 
1978 - que acreditava na pureza necessária de uma política de oposição 
dentro da ditadura militar - você, Renan Calheiros, construiu uma trajetória 
de causar inveja a todos os homens de bem que se acovardam e não aprendem 
nunca a ousar como os bandidos. 

Você é um homem ousado. Compreendeu, num determinado momento, que a vitória não pertence aos homens de bem, desarmados desta fúria do desatino, que é vencer a qualquer preço. E resolveu armar-se. Fosse qual fosse o preço, 
Renan Calheiros nunca mais seria o filho do Olavo, a degladiar-se com os 
poderosos Omena, na Usina São Simeão, em desigualdade de forças e de 
dinheiros. 

Decidiu que não iria combatê-los de peito aberto, descobriria um atalho, um 
mil artifícios para vencê-los, e, quem sabe, um dia derrotaria todos eles, 
os emplumados almofadinhas que tinham empregados cujo serviço exclusivo era 
abanar, durante horas, um leque imenso sobre a mesa dos usineiros, para que 
os mosquitos de Murici (em Murici, até os mosquitos são vorazes) não 
mordessem a tez rósea de seus donos: Quem sabe, um dia, com a alavanca da 
política, não seria Renan Calheiros o dono único, coronel de porteira 
fechada, das terras e do engenho onde seu pai, humilde, costumava ir buscar 
o dinheiro da cana, para pagar a educação de seus filhos, e tirava o chapéu 
para os Omena, poderosos e perigosos. 

Renan sonhava ser um big shot, a qualquer preço. Vendeu a alma, como o 
Fausto de Goethe, e pediu fama e riqueza, em troca. 

Quando você e o então deputado Geraldo Bulhões, colegas de bancada de 
Fernando Collor, aproximaram-se dele e se aliaram, começou a ser 
Parido o novo Renan. 

Há quem diga que você é um analfabeto de raro polimento, um intuitivo. Que 
nunca leu nenhum autor de economia, sociologia ou direito. 
Os seus colegas de Universidade diziam isso. Longe de ser um demérito, essa 
sua espessa ignorância literária faz sobressair, ainda mais, o seu talento 
De vencedor. 
Creio que foi a casa pobre, numa rua descalça de Murici, que forneceu a você 
o combustível do ódio à pobreza e o ser pobre. E Renan Calheiros decidiu 
que, se a sua política não serviria ao povo em nada, a ele próprio serviria 
em tudo. Haveria de ser recebido em Palacios, em mansões de milionários, em 
Congressos estrangeiros, como um príncipe, e quando chegasse a esse ponto, 
todos os seus traumas banhados no rio Mundaú, seriam rebatizados em Fausto e 
opulência; "Lá terei a mulher que quero, na cama que escolherei. Serei amigo 
do Rei." 

Machado de Assis, por ingênuo, disse na boca de um dos seus personagens: "A 
alma terá, como a terra, uma túnica incorruptível." Mais adiante, porém, 
diante da inexorabilidade do destino do desonesto, ele advertia: "Suje-se, 
gordo! Quer sujar-se? Suje-se, gordo!" 

Renan Calheiros, em 1986, foi eleito deputado federal pela segunda vez. 
Nesse mandato, nascia o Renan globalizado, gerente de resultados, ambição à 
larga, enterrando, pouco a pouco, todos os escrúpulos da consciência. No seu 
caso, nada sobrou do naufrágio das ilusões de moço! 
Nem a vergonha na cara. O usineiro João Lyra patrocinou essa sua campanha 
com US1.000.000. O dinheiro era entregue, em parcelas, ao seu motorista 
Milton, enquanto você esperava, bebericando, no antigo Hotel Luxor, av. 
Assis Chateaubriand, hoje Tribunal do Trabalho. 

E fez uma campanha rica e impressionante, porque entre seus eleitores havia 
pobres universitários comunistas e usineiros deslumbrados, a segui-lo nas 
estradas poeirentas das Alagoas, extasiados com a sua intrepidez em ganhar a 
qualquer preço. O destemor do alpinista, que ou chega ao topo da montanha - 
e é tudo seu, montanha e glória - ou morre. Ou como o jogador de pôquer, que 
blefa e não treme, que blefa rindo, e cujos olhos indecifráveis 
Intimidam o adversário. E joga tudo. E vence. No blefe. 

Você, Renan não tem alma, só apetites, dizem. E quem, na política 
brasileira, a tem? Quem, neste Planalto, centro das grandes picaretagens 
nacionais, atende no seu comportamento a razões e objetivos de interesse 
público? ACM, que, na iminência de ser cassado, escorregou pela porta da 
renúncia e foi reeleito como o grande coronel de uma Bahia paradoxal, que 
exibe talentos com a mesma sem-cerimônia com que cultiva corruptos? José 
Sarney, que tomou carona com Carlos Lacerda, com Juscelino, e, agora, depois 
de ter apanhado uma tunda de você, virou seu pai-velho, passando-lhe a 
alquimia de 50 anos de malandragem? 

Quem tem autoridade moral para lhe cobrar coerência de princípios? O 
presidente Lula, que deu o golpe do operário, no dizer de Brizola, e hoje 
hospeda no seu Ministério um office boy do próprio Brizola? 
Que taxou os aposentados, que não o eram, nem no Governo de Collor, e dobrou 
o Supremo Tribunal Federal? 
No velho dizer dos canalhas, todos fazem isso, mentem, roubam, traem. Assim, 
senador, você é apenas o mais esperto de todos, que, mesmo com fatos 
gritantes de improbidade, de desvio de conduta pública e privada, tem a 
quase unanimidade deste Senado de Quasímodos morais para blinda-lo. 

E um moço de aparência simplória, com um nome de pé de serra - Siba - é o 
camareiro de seu salvo-conduto para a impunidade, e fará de tudo para que a 
sua bandeira - absolver Renan no Conselho de Ética - consagre a sua 
carreira. 
Não sei se este Siba é prefixo de sibarita, mas, como seu advogado in 
pectore, vida de rico ele terá garantida. Cabra bom de tarefa, olhem o jeito 
sestroso com que ele defende o chefe... É mais realista que o Rei. E do 
outro lado, o xerife da ditadura militar, que, desde logo, previne: quero 
absolver Renan. 

Que Corregedor!... Que Senado!...Vou reproduzir aqui o que você declarou 
possuir de bens em 2002 ao TRE. Confira, tem a sua assinatura: 

1) Casa em Brasília, Lago Sul, R$ 800 mil, 
2) Apartamento no edifício Tartana, Ponta Verde, R$ 700 mil, 
3) Apartamento no Flat Alvorada, DF, de R$ 100 mil, 
4) Casa na Barra de S Miguel de R$ 350 mil .. 

E SÒ. 

Você não declarou nenhuma fazenda, nem uma cabeça de gado!! 
Sem levar em conta que seu apartamento no Edifício Tartana vale, na 
realidade, mais de R$1 milhão, e sua casa na Barra de São Miguel, 
comprada de um comerciante farmacêutico, vale mais de R$ 2.000.000.Só aí, 
Renan, você DECLARA POSSUIR UM PATRIMONIO DE CERCA 
DE R$ 5.000.000. 
Se você, em 24 anos de mandato, ganhou BRUTOS, R$ 2 milhoes, como comprou o resto? E as fazendas, e as rádios, tudo em nome delaranjas? Que herança moral você deixa para seus descendentes?. 


Você vai entrar na história de Alagoas como um político desonesto, sem 
escrúpulos e que trai até a família. Tem certeza de que vale a pena? 
Uma vez, há poucos anos, perguntei a você como estava o maior latifundiário 
de Murici. E você respondeu: "Não tenho uma só tarefa de terra. A vocação de 
agricultor da família é o Olavinho." É verdade, especialmente no verde das 
mesas de pôquer! 

O Brasil inteiro, em sua maioria, pede a sua cassação. Dificilmente você 
será condenado. Em Brasília, são quase todos cúmplices. 
Mas olhe no rosto das pessoas na rua, leia direito o que elas pensam, sinta 
o desprezo que os alagoanos de bem sentem por você e seu comportamento 
desonesto e mentiroso. Hoje perguntado, o povo fecharia o Congresso. Por 
causa de gente como você! 

Por favor, divulguem pro Brasil inteiro pra ver se o congresso cria vergonha 
na cara. 

Os alagoanos agradecem. 

Thereza Collor 

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