terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ele fura fila. Ele estaciona atravessado. Acha que pertence a uma casta privilegiada. Conheça o PIB (Perfeito Idiota Brasileiro). E entenda como ele mantém puxado o freio de mão do nosso país.
Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de "tigres" porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas,  nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, em qualquer lugar, as deixa pelo caminho. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d'água em sua própria casa. Não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, ou em fazer de conta. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu como um ser preguiçoso e folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto, transformar as pessoas que o cerca em seus empregados.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas, por isso seus pais sempre furaram as filas dos carros no colégio deles. São pessoas que estacionam em vaga para deficientes nos shopping. Pessoas que atrasam uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino, porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra negros, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. Ele também é sexista. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. 

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Aqui, de jeito nenhum. Melhor uma hora de trânsito do que vagão do metrô. 

O PIB gosta de pagar caro. Não porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de  "eu posso". Exibe marcas, e se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega a vista de todos . O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a nossa marca. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. Aqui parece que ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo, enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para ir diminuindo a velocidade, pois não dá mais tempo e você terá que parar. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se fosse morar em Berlim, Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos. Ser honesto, ser justo, não se atrasar em compromissos. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.
Por Adriano Silva





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